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terça-feira, 16 de março de 2010

Nos Bastidores do Automobilismo Brasileiro (17)

fragmentos do livro de Jan Balder e comentários do Amigos Velozes.

Em 1970 havia uma leva de pilotos brasileiros na Europa. Emerson, Luiz Pereira Bueno, Moco, Marivaldo Fernandes, Fritz Jordan, Wilson Fittipaldi Jr., todos disputando suas posições com grandes pilotos europeus dessa era. Apenas Emerson estava na F1. A F1 da época tinha muitas diferenças em relação à atual. Uma delas é que os pilotos de F1 disputavam também provas de F2. Então Emerson chegou na F1 tendo antes disso concorrido com pilotos dessa mesma categoria mas na F2. Qualquer piloto campeão tem outros como referencia, principalmente na fase inicial da carreira. Tendo chegado à F1, Emerson precisava se adaptar a um outro carro muito mais veloz e potente, mas já sabia com quem iria disputar. O grande desafio de todos, era conseguir andar no meio de grandes pilotos mas com um carro antiquado, embora tivesse sido vencedor em passado recente.

No GP da Alemanha em Hockenheim, o amigo Jan Balder estava presente num momento muito significativo na carreira de Emerson. No dia anterior à classificação, Emerson disse ao Jan: “Tomara que êle me dê os pneus do Rindt.” Emerson se referia aos pneus usados na sexta por Rindt, que nessa condição de já ´acomodados´ poderiam mostrar performance rápidamente. Um jornalista da Auto Sprint conversou com Emerson antes da classificação e lhe fez comentários diversos, entre outros sobre os bastidores da época.



Seguimos até o carro do Emerson e, enquanto ele trocava de roupa no banco traseiro, ouvia atento as orientações de Franco Lini. A maior preocupação era com respeito à classificação para o grid. Na época, a Fórmula 1 grantia vagas para os pilotos principais de cada equipe e para os ex-campeões mundiais, independentemente do tempo de volta obtido. Sobravam 15 pilotos para disputar 11 vagas disponíveis e o Emerson estava entre eles, com um carro de certa forma já obsoleto. O Lotus 49 havia obtido sucesso em 1968, com o título de Graham Hill, e até meados de 1969, quando venceu seu último GP.

No treino final, Emerson andou muito bem, classificando-se com segurança em décimo terceiro lugar, à frente de ex-campeões, como John Surtees, que estreava seu próprio carro, Denny Hulme, com um McLaren, e Graham Hill, com um carro idêntico. Hill encontrava-se em precário estado físico, com as duas pernas ainda em recuperação após seu acidente nos Estados Unidos, no final da temporada de 1969.

Emerson parou o cronômetro em 2´02” cravados, um tempo que deixou Collin Chapmann eufórico diante dos boxes. Ele comentava com Maria Helena que “esse garoto” iria ser campeão mundial em breve.

Naquela época, transitar pela pista era possível com a credencial máxima, para analisar cada piloto em termos de freada, guiada e pé no acelerador. Portanto, era ótimo ter Chico Rosa dando muitas dicas ao Emerson sobre o que via do lado de fora.


Nos seus primeiros dias na F1, Emerson era apenas um garoto no meio de gente grande, que tinha muita habilidade mas também muito a aprender. Na primeira vez que andou num F1 ele sentiu o carro saindo de frente e voltou aos boxes relatando a dificuldade. Jochen Rindt lhe disse para acelerar mais e a tendencia desapareceria. Ninguem faz tudo sozinho, do nada, sem nenhum ensinamento. E o que Emerson aprendeu tendo sido companheiro de equipe de Rindt, foi fator determinante para a sua continuidade na equipe após a morte do austríaco, momento em que o segundo piloto da equipe, John Miles, deixou as pistas imediatamente. O aprendizado fez efeito pois nesse mesmo ano Emerson teria sua primeira vitória nos Estados Unidos. A prova da Alemanha, acima relatada, foi vencida por Jochen Rindt e Emerson chegou num brilhante 4o. lugar na mesma volta do vencedor, marcando os seus primeiros pontos na categoria.

Muito ao contrário dos dias de hoje, quando os pilotos saem daqui com um trajeto já conhecido e falando ingles, Emerson chegou na Inglaterra sem falar uma palavra de ingles e sem conhecer ninguem por lá. Contou com a ajuda de amigos, entre eles Jerry Cunningham que o ajudou na mudança. Depois chegou Chico Rosa que foi por muito tempo o seu braço direito.

Mas hoje raramente alguem faz uma menção à parte a outra pessoa importante. No retorno de sua primeira temporada na Inglaterra, Emerson conheceu em Congonhas no balcão da British United, Maria Helena Dowding, com quem se casaria na Inglaterra. Ter uma esposa aumenta as responsabilidades, mas também dá fim à solidão em um país estranho, complementa a vida e colabora com o equilibrio. Maria Helena era a companheira de todas as corridas, às quais iam de carro pelas estradas européias, e era tambem sua cronometrista nos boxes. Coisa muito diferente dos dias atuais em que as mulheres dos pilotos apenas decoram os boxes como vasos de canto, isso quando os pilotos as levam.

Muitos anos depois a situação se repetiria em outras condições, quando Emerson se mudou para os Estados Unidos, com os bolsos vazios e indo morar em um minúsculo apartamento com Tereza Hote, sua segunda esposa que conhecera numa academia de ginástica em São Paulo. Com esta também se casou fora do Brasil.

2 comentários:

Aun disse...

No último domingo pudemos ouvir o locutor Galvão afirmando que o Emerson foi o único responsável pelo sucesso dos brasileiros no automobilismo internacional.

Ele que estava de convidado na cabine foi gentil, afirmando que não fez nada sozinho pronunciando em sequencia alguns nomes de pilotos históricos.

Admiro os Fittipaldi. Só gostaria de entender um dia os motivos que levaram ao combate Emerson X Castroneves.

Um abraço,

Rafael Aun

Zé Clemente disse...

Pois é Aun, batidores jamais revelados. O fato é que pelas declarações do Helinho a briga foi feia.

Quanto à Globo, eu li que o Emerson estará presente em outras etapas. Acho que vai na cabine também. Mas daquele jeito, script da Globo, pra variar. Antes assim do que nada.

Abraço