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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Senna. Vinte anos depois.......



Vinte anos depois que Senna faleceu ele ainda é um herói para o brasileiro e mesmo que tenhamos outro campeão nas pistas Senna continuará na distinção máxima. Essa admiração acima da média é hoje uma história pronta, fechada, que não mudará mais e que foi interrompida no auge da performance. Senna teve tal impacto na vida do brasileiro que, talvez seja o único brasileiro que despertou numa criança o desejo de ser como ele e não como Pelé.

Para um garoto que conta hoje com 20 anos e que ,portanto, veio ao mundo no mesmo ano em que Senna se foi, o pilôto é parte de um imaginário que pode ser compreendido pela existencia de uma imensa quantidade de matérias jornalísticas e filmes postados na internet. Para reforçar um pouco mais essa admiração que existe de forma muito visivel entre os mais jovens, há ainda os comentários do pai e as matérias de televisão com pessoas que conviveram com Ayrton Senna.

Mesmo após a sua morte e sete títulos de Schumacher na categoria, Senna permanece na condição de mito. De tal forma que até mesmo na Europa há pessoas que entendem que Senna era superior ao alemão Michael Schumacher. Nos ultimos dias Senna esteve tão evidente na mídia quanto as tensões na Ucrania. E a razão disso não é a mídia isoladamente que, de fato, se apropria da oportunidade que o tema oferece para mais publicações. A razão é, na prática, o próprio pilôto, o seu estilo profissional, as suas marcas e o seu estilo pessoal.

Em resumo, Senna é uma figura singular no meio, totalmente distinguível. A mídia, óbviamente, vai dar destaque aos que estão ou estiveram no tôpo. Alguem hoje, por exemplo, lembra de Scot Speed, um americano que chegou na F1 com muitas palavras mas não sabia escolher que pneus usar num GP?

Senna se destacou e permanece nessa condição em função dos seus próprios êxitos. De uma certa forma é possível dizer que Ayrton Senna ofuscou outros grandes nomes do nosso esporte. Para fazer uma comparação mais atual, Senna tem mais importancia no imaginário dos mais jovens do que o tenista Gustavo Kuerten, outro dos nossos nomes brilhantes do esporte, que um amigo meu disse ser o Senna da raquete no dia da histórica e surpreendente vitória em Roland Garros..

Para quem como eu está perto dos 60 anos, essa visão tem ingredientes a mais que reforçam a minha noção de que Senna é, e sempre será, visto como o mais destacado esportista brasileiro. Temos nomes no esporte que tiveram grande e merecido destaque nas suas épocas e foram citados com verdadeiras honras. Por exemplo, temos expoentes como Maria Ester Bueno, Adhemar Ferreira da Silva, Pelé, Mané Garrincha, Éder Jofre, Miguel de Oliveira, Oscar Schmidt, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Gustavo Borges, e mais um lista significativa capaz de mostrar que o Brasil tem mesmo do que se orgulhar no esporte. Senna é visto no tôpo da lista.

Para quem, como eu, se lembra do hino dos canarinhos quando eu tinha tão somente 7 anos de idade em 1962 e não entendia bem porque o brasileiro era o melhor de um mundo esquisito em que comunistas comiam criancinhas, o entendimento da admiração da qual Senna desfruta hoje entre os brasileiros, tem causas adicionais.

Em 1966 Pelé travou praticamente sozinho uma duríssima batalha com nossos adversários, sendo parte de um time bem desorganizado que voltou para casa de cabeça baixa e vaiado, mesmo sendo já duas vezes campeão no futebol. O Brasil melhor do mundo se tornou um dos piores e a sensação de decepção foi expressa literalmente na forma de tristeza e mandou a nossa autoestima para um dos níveis mais baixos até então.

Em 1970 me lembro muito bem da inversão dessa sensação de uma forma sem precedentes na nossa história até hoje. Estávamos curados da nossa suposta inferioridade. Dois anos depois Emerson Fittipaldi fez o que certa vez Nelson Piquet classificou como colocar o ôvo em pé. Ganhou um título que ninguem cogitaria, em terras alheias, sendo parte de um time que não era nosso, brigando com gente que nunca acreditaria num brasileiro para essa distinção, num esporte no qual não tinhamos uma várzea reveladora de talentos.

Emerson se tornou o máximo naquele dia em Monza. E no retorno ao Brasil desfilou nas ruas em carro do corpo de bombeiros, assim como a seleção dois anos antes, e com muita gente acenando para o novo representante da nossa superioridade. Assim, deu um surpreendente pontapé inicial num jogo que passamos a assitir todos os domingos pela manhã.

Ao mesmo tempo que o nosso maior futebol do mundo ficava gripado, tendo chegado depois à pneumonia, o automobilismo se tornou o nosso mais potente analgésico. Até 1994 o brasileiro teve motivos para continuar engolindo com menos dificuldade uma seleção de 'fim de grid', ao mesmo tempo que fazia festa com frequencia para vitórias em corridas e campeonatos. O automobilismo nesse período teve a capacidade de fazer o brasileiro ir mais cêdo para a cama no sábado e deixar para mais tarde a pelada de domingo, muito comum antigamente nas manhãs.

Senna chegou no tôpo dessa trajetória alimentando a ansiedade do torcedor num cenário de disputas que lembrava muito bem o nervosismo que o brasileiro sentia numa partida da seleção nos anos 1960. Ele deu continuidade a esse desejo de vitórias e bandeira brasileira visível para o planeta. Tivemos Emerson e Nelson e na falta deles tínhamos Senna. E para potencializar mais a admiração, entram no computo números recordistas não imaginados na época.

A interrupção trágica de uma trajetória que ainda tinha outros capítulos mais, imediatamente deixou no torcedor fanático a sensação de apito final. A festa acabara e restava esperar que alguem o substituisse pois ele mesmo já tinha feito esse papel com brilhantismo, e assim sendo outro brasileiro viria na sequencia. Nos anos que se seguiram o futebol curou-se da gripe prolongada, viramos os melhores do mundo outra vez, e hoje nos próprios estádios de futebol Senna é lembrado e ovacionado.

Mas nunca foi substituido à altura. E, por enquanto, nada aponta para a possibilidade de que venha a ser. Hoje quando se completam 20 anos da sua morte a Copa do Mundo terá início justamente no estádio do seu time. Se estivesse vivo, com toda ceteza estaria presente no estádio torcendo para a nossa seleção da mesma forma como fizemos no passado, fosse numa partida de futebol ou numa corrida de F1.

Embora a tragédia tenha interrompido uma carreira no auge da performance, e marcado a sua imagem para sempre nas lembranças de quem o viu pilotar, Senna será sempre reverenciado como o nosso maior pilôto de automobilismo, ainda que algum dia tenhamos mais outro campeão de F1. Assim como o futebol se recuperou e ganhou novamente, no automobilismo nada impede que isso venha a acontecer e com certeza Senna será para um pilôto brasileiro a referencia de superioridade, de combatividade. Quando veremos isso novamente é dificil imaginar. Pode ser que nunca aconteça enquanto estivermos vivos. Pode ser que a nova geração que está dando as caras hoje, comece outra etapa em que vai valer mais a pena acordar cêdo num domingo e cancelar a pelada do fim de semana. Tudo é possível.

2 comentários:

Talarico disse...

Parabéns Zé pela lucidez e qualidade de seu texto.
Forte abraço,
Tala

Zé Clemente disse...

Obrigado Tala. Quem sabe eu consigo voltar à carga de novo no blog. Precisamos nos encontrar um dia desses. Estou trabalhando mais ou menos perto de voce. Abrx