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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Luiz Manzini - Mãos na graxa. (1)


Luiz Antonio Manzini, nasceu em 1940, quando seus pais moravam na Ladeira Aurora, bem próximo ao centro de Santo Amaro e ao lado do atual terminal de onibus urbanos. Cresceu e se manteve sempre no bairro, e herdou o modo de vida da família que incluia uma oficina mecânica que na década de 1960 deu manutenção num grande número de carros de mecânica Renault. Estudou no Colégio Alberto Conte, que era uma referencia na época, e no Colégio Doze de Outubro na esquina da R. Izabel Schmidt e Av. Adolfo Pinheiro. Abandonou os estudos com o objetivo específico de ser mecânico. É êle quem conta um pouco da história da família, e porque não, do bairro também.

A família Manzini chegou ao Brasil vinda da Itália no início do século 20 e fixou-se inicialmente na Vila Clementino. Um dos seus entes, que na época tinha tão sómente um ano de idade, tornou-se figura emblemática no bairro de Santo Amaro, que há muitas décadas já foi município.

Quem é da região conhece a Avenida Victor Manzini onde se encontra o clube de golf, e que dá acesso à ponte do Socorro. Victor Manzini cresceu aqui no Brasil e tornou-se jornalista autodidata. Com a ajuda da família da esposa, trouxe da Alemanha máquinas de linotipia com as quais montou um jornal chamado O Sol Levante, em 1938. Recentemente ficou estabelecido que a profissão de jornalista pode ser exercida sem diplomação. No tempo de Victor Manzini isso não apenas era desnecessário, como também era o menor dos impedimentos. Foi um pioneiro que escrevia as matérias, produzia o jornal e entregava. Talvez essa imensa dificuldade fez o jornal fechar as suas portas pouco tempo depois. Mas as portas se reabriram novamente em 1940 e o jornal ganhou nome novo. Nascia a Tribuna de Santo Amaro, que era entregue num Chrysler 1938. A empresa permaneceu sob o comando da família até por volta de 1960.

Victor Manzini faleceu com mais de 90 anos e tinha passado o comando para o filho, Marcos Manzini, que iria fazer o mesmo com o neto. Êste era o único formado em jornalismo, mas infelizmente faleceu com pouco mais de 30 anos. Luiz Manzini mantinha uma amizade de infancia com Neco (Manoel Manzini), o neto de Victor, e por muitas vezes fizeram o conhecido caminho dos romeiros, com bicicleta, indo e voltando no mesmo dia onde a maior parte do trajeto era de terra.

O avô de Luiz, José Manzini, foi mecânico de ferrovias e um dia resolveu ter a própria oficina mecânica. Esta passou para o filho, João Batista e na sequencia para Luiz Manzini. Êste lembra de uma passagem familiar que definiu para o avô, José Manzini, que o seu filho João seria mesmo mecânico.

- Um dia o meu avô estava mexendo em um relógio de parede e a minha avó deve ter tirado êle do sério, pois o meu avô pegou um martelo e deu no relógio. Entortou as engrenagens. Aí, o meu pai que trabalhava no centro da cidade numa loja de chapéus, chegou e viu aquilo, e acabou consertando o relógio.

- O meu avô disse que não tinha jeito. Tinha que ser mecânico mesmo.


O avô paterno de Luiz, seu tio Marcos, o tio Doro (Doroteo), e o pai trabalharam na revenda Chevrolet Cássio Muniz. Até que um dia o avô resolveu ter uma oficina mecânica onde hoje há uma farmácia, na esquina das ruas Anchieta e Antonio Bento. Essa oficina era o modelo típico de oficina de bairro da época, onde a residencia e a oficina ficavam lado a lado. Nessa oficina aconteceu uma coisa muito curiosa, conforme conta Luiz.

- Êles chegaram a fazer um carro de corridas, cuja foto eu não tenho pois pedi a um cara para ampliar e a foto sumiu. O Caixote é louco pra achar essa foto. A fotografia tinha o meu avô, meu pai e o meu tio, ao lado de um fordinho com suspensão rebaixada. Fizeram em 1930. Êles acabaram vendendo o carro.

(nota do blog: Caixote é o apelido de família de Beto Manzini, sobrinho de Luiz, proprietário do Centro de Pilotagem Roberto Manzini)

- Foi o carro que êle fez sem junta de cabeçote e fêz o comando na mão. O meu pai fez a parte de chassi e suspensão. A carroceria ficou para o meu tio que era funileiro. Era uma equipe. Como junta foi usado um papel de jornal. Se estiver perfeitamente plano não vaza.

E como foi acertado o assento do cabeçote no bloco?

- Era de ferro fundido. Acertaram com carborudum, na mão. Lapidaram as faces do cabeçote e do bloco, um no outro. Eu já fiz com tinta de alta temperatura. Para deixar o cabeçote no ponto certo demorou quase tres dias, lapidando até que sumissem as marcas das falhas.

- E o comando?

- O meu pai encheu o comando com solda de anel de segmento. Depois dá acabamento e tempera no maçarico. Aquece até ficar vermelho e joga no óleo. Fica muito duro e precisa revenir, também no maçarico.

- Quando eu fiz a primeira vez, desbastei no esmeril pelas costas para dar levantamento. Depois de desbastado dava abacamento com lima e lixa. A intenção era não mexer com a dureza da peça. Eu tinha aprendido com o meu pai a fazer com um molde. (chapa recortada com o formato desejado, conhecida como chapelona, e que era utilizada para ajuste da forma).


Quanto tempo demorava para fazer um?

- Uns dez dias, porque não ia direto. Fazia um pouco, parava, voltava.

Luiz conta outra passagem que envolve um italiano muito conhecido em Santo Amaro. Mário Bertoni, fundador da Retífica Santo Amaro, falecido há poucos anos. Mário Bertoni era ferramenteiro quando inaugurou a sua retífica. Um dia pegou um Hudson 1938 de um italiano para retificar o motor. Ao invés de retificarem os tuchos, passaram no esmeril. Por isso acabou arredondando o comando de válvulas, com o uso. Levaram o carro na oficina de João Batista Manzini. O carro esquentava e não andava.

- Meu pai ouviu o motor, mediu o levante das válvulas e viu que o comando estava gasto. O meu pai pediu quinze dias para resolver o problema. Refez o comando na mão. Êsse carro rodou quase oito anos na mão do dono.

Como muitas pessôas que tiveram envolvimento com oficinas mecanicas, Luiz tinha o sonho de ser piloto. Fora a mecânica, as três coisas que mais tinha vontade de fazer eram nadar, guiar bem e dançar. Queria ser pilôto. O pai dizia que era louco e que para morrer não precisava nada disso.


Um comentário:

Claudio Gil disse...

fico orgulhoso e feliz em conhecer o Pai dos meninos, seu Luiz 8 anos mais velho do que eu. mas muito boa gente que quebra os galhos dos carros de todo mundo ate hoje.parabens muitos anos de vida p vc veio Luiz