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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Nossos melhores pilotos - Ayrton Senna.

Se eu estivesse escrevendo sobre Kimi Raikkonen, seria muito simples. Ele pouco fala e restam apenas as suas curtas declarações em coletivas. Portanto as estatísticas disponíveis seriam o suficiente para falar de um piloto desses.

Ao contrário dessa situação, Senna é sem dúvida o piloto do qual é mais difícil escrever-se algo, pois a sua personalidade se mistura com a sua carreira de forma intensa, e é fator de influencia nos seus resultados. Práticamente é necessário falar dele sob duas óticas.

Seus maiores desafetos na F-1 foram Alain Prost e Nelson Piquet. Aqui já há um dado a ser levado em conta. Nelson ingressou na F-1 em 1978 e Prost em 1980. Portanto esses dois são contemporâneos. Já Ayrton Senna ingressou em 1984 quando os carros-asa haviam sido banidos. O grande diferencial entre as equipes passou as ser os motores turbo. Nesse ano Piquet já era bi-campeão e Prost seria campeão, pela primeira vez, um ano depois.

Senna nunca pilotou contra pilotos medíocres, e isso vinha desde o início da sua carreira. No Brasil onde iniciou no kart, o preparador Tchê me contou que certa vez Senna levou uma surra numa prova na chuva e saiu de lá humilhado pelo resultado decepcionante. Como o próprio Tchê conta, Ayrton não levava nada para casa. Por isso se ocupou de conseguir pilotar muito melhor na chuva, condição que exigia uma tocada muito diferente.

Enquanto esteve no Brasil, Senna e Tchê formaram uma dupla que rendeu títulos no kartismo paulista, brasileiro e sul-americano.

O grande sonho era ser campeão mundial de kart e conseguiu apoio integral da fábrica de motores Parilla, mas nunca conquistou o mundial da modalidade. Aí estava um dos seus grandes rivais de pista, Terry Fullerton. Esse período marca uma fase determinante na carreira de Senna. Enquanto Emerson e Piquet cumpriram a fase do kartismo sempre em território nacional, Senna disputou 4 mundiais da modalidade entre 1978 e 1981, este último quando já disputava a F-Ford na Inglaterra. O seu nome ficou bem evidente na Europa por conta dessas participações.

Senna mudou-se para a Inglaterra em 1981 para pilotar na F-Ford 1600 com um Van Diemen. Na época os custos na F-1 cresciam sem parar mas as categorias de base ainda eram relativamente acessíveis, embora a presença de um patrocinador fosse indispensável.

Retornou ao Brasil para trabalhar nos negócios do pai, mas aí o desejo pelas competições já era muito forte. Seguiu novamente para a Inglaterra para a F-Ford 2000 e foi campeão. Na sequencia disputou a F-3 inglesa onde o seu rival foi Martin Brundle.

A disputa nos mundiais de kart na Europa foi um dos fatores que o fez ser notado na Inglaterra, condição oposta dos brasileiros anteriores que lá chegaram como ilustres desconhecidos. Senna já era muito comentado na imprensa, que habitualmente privilegiava as corridas de F-1.

Senna iniciou na F-1 em 1984. Ao contrário dos outros brasileiros, a sua carreira de kart foi longa. Isso acabou tendo dois efeitos significativos. O primeiro é que ele passou mais tempo numa modalidade muito competitiva, que segundo os pilotos é a que mais se assemelha à F-1. O ponto positivo disso ficou evidente quando ele fez o primeiro teste de F-1 e comentou com um amigo brasileiro “Voltei para o kart”. Porem os nossos dois outros campeões tinham além do kart outras experiencias, inclusive na preparação de motores. Por isso, Senna não era reconhecido como um acertador de monopostos.

A habilidade ficou muito evidente quando no seu ano de estréia, com um carro menos potente que os outros, chegou em segundo sob forte chuva no GP de Monaco. Não fosse o encerramento prematuro da prova, teria sido o vencedor à frente de Alain Prost, então na McLaren. De fato foi uma surpresa inesquecível a grande performance em pista molhada, muito acima dos concorrentes.

A Lotus tinha os motores Renault turbo que finalmente haviam se tornado confiáveis. Senna assinou com a equipe em 1985 e outra vez na chuva mostrou a que veio, vencendo em Portugal nessas condições - a sua primeira vitória na categoria.

Os motores faziam grande diferença nessa época e a Honda passou a fornecer para a Lotus. A equipe estava em decadencia e o carro não estava à altura dos concorrentes. A relação de Senna com a Honda e a adoção desses motores pela McLaren mudou a carreira do piloto siginificativamente, quando ele assinou com a McLaren em 1988. Uma grande equipe com um carro competitivo e um motor eficiente. Nela ganhou os seus tres campeonatos.

Mas aí mesmo na McLaren, a sua personalidade ficaria muito visível. Foi na McLaren que Senna travou uma batalha sem fim com o maior rival de toda a sua carreira, Alain Prost.

Uma coisa que influencia os resultados de um piloto é a sua condição mental. E Senna não apenas sabia muito bem disso como também tinha um preparador físico que pensava dessa forma e cuidou por muito tempo dos seus treinamentos e condicionamento mental - Nuno Cobra Ribeiro. É famosa a sua descrição da pole obtida em 1988 em Monaco, onde ele argumenta ter excedido os seus limites.

Aqui vem uma característica discutível de Senna. Os seus fãs não pensam duas vezes ao citar a fantástica marca de 65 poles como indicador da sua capacidade. No entanto ele venceu 41 vezes. E justamente nessa prova de Monaco, Senna bateu na curva que antecede o túnel. Admitiu que errou a aproximação, numa entrevista.

O seu arqui-rival Prost tem a metade das poles, mas tem 10 vitórias a mais. Na verdade o nível de concentração de Senna era muito intenso e a sua habilidade e destemor diante do perigo o levaram à pole muitas vezes. Mas quem consegue manter esse nível tão alto de concentração durante toda uma prova? Portanto Senna pode ser citado como um piloto que desafiava o perigo e os records motivado pela obstinação de ser sempre o melhor.

Na busca da supremacia Senna se mostrou obstinado e perfeccionista. Encarava tudo como desafio e a batida em Monaco foi seguida de uma sequencia de 5 vitórias nessa pista.

Desde que ingressou na F-1 até o seu último ano na McLaren, as mudanças mais significativas foram os motores, que passaram de turbo de 1,5L para aspirados de 3,5L.

No seu último ano na McLaren o carro não estava à altura das Williams e em 1994 assinou com a sua ultima equipe. Mas justamente nesse ano a F-1 passava por uma mudança profunda, onde qualquer tipo de auxílio eletronico havia sido banido, fora as limitações de aerodinamica. E o carro de 1994, que atendia as determinações da FIA, já não era o mesmo do ano anterior e tinha uma traseira muito nervosa. A Benetton de Schumacher era bem mais equilibrada e Senna sofreu para manter o seu carro à frente do alemão. A sua obstinação pela vitória era tal que fez o que pôde para estar sempre à frente do alemão nas largadas, o que aconteceu nas 3 ultimas provas da sua vida.

O seu antigo rival deixara a categoria e o alemão, pilotando um carro superior, era o piloto a ser batido. Na última prova em Ímola, simplesmente saiu reto na Tamburelo e faleceu ao bater no muro de concreto. Aí a sua personalidade esteve presente, pois ele não admitiria perder mais uma vez para o alemão que vencera as duas primeiras provas do ano.

Ayrton Senna, na minha opinião foi o piloto mais arrojado entre os tres brasileiros campeões. Na verdade há uma diferença concreta de visão de vida entre esses tres e Senna tinha na pilotagem uma forma de alcançar os seus próprios limites. Situação bem diferente de Nelson Piquet que jamais fez preparação física e tinha o mesmo esporte como fator de maior satisfação. Senna entrou na F-1 com um objetivo muito claro e evidente: ser o melhor do mundo, a que custo fosse.

2 comentários:

Pedro Henrique "Baleiro" disse...

Zé, muito bom. Acho que pra sentar num F1 já mostra que o cara não tem nada de bobo. Todos os brasileiros que dirigiram um carro desses tinham comprovados méritos.
Mas não dá pra esquecer o Senna ocupando a pole com um LOTUS, que segundo o próprio Piquet, era uma cadeira elétrica.

Renato Bellote disse...

Sem dúvida insubstituível.

abs