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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Nossos melhores pilotos - Nelson Piquet

A história dos brasileiros na F-1 poderia ter sido diferente na década de 70, caso José Carlos Pace, o Moco, não tivesse falecido num acidente aeronáutico com o seu amigo, também piloto, Marivaldo Fernandes.

Em 1981, quando a equipe Copersucar já não tinha mais condições de permanecer na categoria, e Emerson passava por enorme descrédito tendo abandonado a carreira de piloto, Nelson Piquet Souto Maior conquistou seu primeiro título na F-1, o terceiro de um brasileiro. Na mente do público brasileiro o bi-campeão Emerson havia sido definitivamente substituído. O nosso interesse pela categoria teve um súbito crescimento.

A chegada de Piquet na F-1 se deu de forma diferente e as vitórias de Emerson tiveram uma influencia. No início dos anos 1970, o interesse pelo automobilismo brasileiro estava crescendo. O Brasil passou a contar com provas internacionais e o nosso automobilismo cresceu e se profissionalizou. Também no início dessa década o nosso kartismo ganhou força e passamos a ter campeonatos de kart mais competitivos. A Fórmula Vê foi reeditada com o nome de Fórmula VW1300 e surgiu também a Super-Vê, com uma mecanica mais sofisticada e preparação livre dos motores VW1600, e pneus slick. Isso tudo nos colocou mais próximos, técnicamente falando, das categorias européias de base.

Piquet foi campeão brasileiro de kart em 1971 e 1972, e também da Super-Vê em 1976. Apesar de ser filho de um ex-ministro, Piquet nunca se prevaleceu da influencia e condição material da família. Trabalhou como mecânico em Brasília,  o que lhe trouxe as bases de um conhecimento importante para a sua carreira de piloto.

Por isso, quando mudou-se para a Inglaterra com a ajuda de amigos em 1977, foi pilotar na F-3 e se tornou campeão na categoria no ano seguinte. Me lembro bem que nessa época eram constantes os comentários nas oficinas de preparação sobre o jovem Piquet. Sem passar pela F-2, fez um teste num McLaren M23 da equipe BS Fabrications. Ainda em 1978 estreou com um Ensign, depois fez mais 3 provas com o McLaren da BS Fabrications e uma pela Brabham.

Em 1979 foi contratado por Bernie Ecclestone, então proprietário da Brabham. O que eu considero o contrato mais importante da sua carreia, era um que lhe dava o direito de guiar o F-1 da equipe por um salário que nada mais significava que a sua subsistência material. Aí Piquet mostrou que o seu grande objetivo era pilotar e que estava disposto a fazer isso com a oportunidade que lhe aparecesse. A obstinação deu certo e em 1980 perdeu o título para Alan Jones, finalizando o campeonato em segundo. Em 1981 ganha o seu primeiro título de Carlos Reutmman, então piloto da Williams.

Numa entrevista na tv, depois da sua aposentadoria, Nelson Piquet contou que a partir daí passou a exigir melhores condições financeiras. Afinal ele era o campeão do mundo num inicio de carreira muito rápido.

A F-1 dessa época estava numa fase de subida constante de orçamentos e muitas mudanças tecnológicas. Piquet ingressou na categoria no período dos carros-asa. Na sequencia teve inicio a era dos turbos e depois as suspensões ativas. No final na sua carreira, na Benetton, veio outra mudança significativa que era o bico do carro que foi apelidado de tubarão e muito contestado pela concorrencia que alegava a recriação do efeito solo.

Piquet foi um dos pilotos que passou por mais mudanças na F-1 e a sua afinidade com a mecânica foi um grande auxílio na sua compreenção do equipamento. O seu segundo campeonato foi pela Brabham também com motor BMW turbo. O terceiro, pela Williams, com o Honda turbo de 6 cilindros.

Mas uma das suas grandes características era compreender que as corridas podem ser ganhas não apenas por conta da pilotagem. Piquet era um piloto de raciocínio muito rápido e sempre antenado em tudo que acontecia ao seu redor. Irreverente e sem medidas nas declarações, conquistou tanto admiradores fiéis como tambem inimigos. Tinha consciencia de que o fator psicológico era parte dos resultados e por isso não pensou duas vezes ao dar sumiço nos rolos de papel higienico no motorhome da Williams quando o seu companheiro de equipe, Nigel Mansell, estava padecendo de diarréia. Na pista surpreendeu a equipe ao entrar no box para troca de pneus no lugar de Mansell que foi obrigado a completar mais uma volta com os penus desgastados. A tocada precisa e segura não impediu o arrojo quando ultrapassou Senna por fora no GP da Hungria numa curva de 180 graus. Fora coisas inusitadas como propor à equipe disparar extintores, e correr sem instrumentos afim de aliviar o peso do carro.

Sem dúvida Piquet foi um dos últimos romanticos da F-1 e pilotou enquanto o prazer da atividade esteve presente na sua carreira. No seu último ano na Benetton, participou de forma muito ativa no desenvolvimento do carro, pilotando em testes por 40000 km, conforme declaração sua numa entrevista de televisão. Tinha uma preferencia declarada por circuitos de alta velocidade, e foi num desses que teve o pior acidente da sua vida. Após abandonar a F-1 foi participar da 500 Milhas de Indianápolis e por pouco não saiu de lá morto ao bater violentamente na saída da Curva 1. Mesmo com os pés em recuperação desse acidente, voltou no ano seguinte na mesma prova e pela mesma equipe, a Menards, mas não completou.

Do meu ponto de vista Piquet foi beneficiado pelo panorama do automobilismo brasileiro na década de 1970 e saiu daqui para a Europa com expertise suficiente para enfrentar os seus concorrentes. Viveu o automobilismo a sério enquanto na pista, e usufruiu dos seus frutos como bon vivant e, fora jogar tenis nas horas vagas, jamais se dedicou a fazer preparação física. A sua compreenção do equipamento que pilotava foi determinante para poder se adaptar a constantes mudanças. Era um piloto que pilotava principalmente com a cabeça.

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