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quinta-feira, 11 de março de 2010

Nos Bastidores do Automobilismo Brasileiro (16)

 fragmentos do livro de Jan Balder e comentários do Amigos Velozes.

Em 1970 Jan Balder correu a 12 Horas de Interlagos com um Puma de propriedade de Angi Munhoz e Freddy Giorgi. Conseguiu o carro atravéz de Milton Masteguim da Comercial MM. Esse carro foi o escolhido no lugar do BMW “esquife voador”, pois este lançou o motor nos treinos. Jan precisava viajar para a Itália e não terminou a prova. Sómente em Milão recebeu por carta a notícia de que o seu companheiro nesta prova, Fernando Barbosa, finalizou em sétimo lugar.

Antes da largada, o jogo de penus foi trocado e o carro ficou com leve tendencia de sair de frente em pista molhada.



Senti-me à vontade com o resultado e, na largada ao estilo Le Mans, combinei com meu companheiro Fernando de ele correr e passar direto pelo nosso carro sem retirar o selinho do pára-brisa, que era obrigatório por regulamento, sob pena de perdermos uma volta. O Otávio, do lado de fora, fez o serviço e a superqueimada na largada rendeu. Na curva 1 eu estava em quarto lugar e, logo depois, no Retão, levei tiroteio de todo lado com os carros mais velozes ultrapassando nosso Puma. No miolo me divertia, enquanto a pista continuava molhada.

De madrugada baixou aquela neblina, e os carros formavam fila indiana, assumindo um ritmo bem mais lento. Que dificuldade! Senti sadudades dos tempos em que, estando do lado de fora, colocávamos latinhas de óleo queimando e sinalizando as curvas para ajudar nossos amigos. Lembrei do Bird Clemente que, numa 24 Horas, pilotando o R8 Renault da equipe Willys, usou a luz da casa do Orozimbo, caseiro de Interlagos, como referencia para começar a contar até dez e fazer a primeira perna da Curva da Ferradura. Quando lá pelas tantas o Orozimbo foi dormir e apagou a luz, o Bird capotou feio.

Num determinado momento, resolvi passar todo mundo da fila e fiquei totalmente perdido com aquele monte de faróis atrás. Mal conseguia ver a faixa branca no centro da pista. Pensei: “Não dá”, e voltei comportadinho para trás da fila. Eis então que surge o Puma, muito bem preparado pela equipe Marinho e pilotado pelo Fausto Dabbour, que largara na segunda posição do grid, mas que se atrasara com algumas paradas no boxe, por problemas elétricos. O carro deles tivera principio de incendio na oficina do Marinho horas antes da corrida. Naquela neblina, o Fausto me acenou e eu engatei nele; fui de reboque. A toda hora, ele apagava as luzes para não dar referencias aos carros de trás. Passei a imitá-lo e, com esse macete, escapamos do bolo.

Meu amigo Faustão vinha andando uma barbaridade e eu não desgrudava dele. “Sensação estranha”, pensei. “Se ele errar, vou junto”. Mas deu tudo certo e encostamos no grupo da fila indiana que estava mais rápido. O Brid Clemente com o Opala sempre andando forte na neblina, O Luiz Bueno com o Bino, e o Ubaldo Lolli acompanhado com o Alfa GTA. Engatamos neles em boa parte daquele turno.


Vivemos um mundo muito concreto, cheio de regras e limitações, e isso atinge as corridas também. As coisas tinham mais graça antigamente, eram mais atraentes. Nesse mundo muito rápido dos dias atuais não há espaço para imaginação e improvisos. O romantismo cedeu lugar para uma vida moderna onde praticamente tudo é previsível. O grande atrativo da vida dessa época era justamente a imprevisibilidade. Sempre havia algo a ser descoberto, a ser visto pela primeira vez. O mundo de hoje dá a falsa impressão de que está pronto. Pode estar aí uma razão forte para que o nosso automobilismo de hoje não seja nem a sombra desse do passado.

Uma coisa muito interessante, seria poder ouvir estórias contadas pelo Orozimbo. Viu da sua propria casa uma fila de campeões desfilarem na sua frente.



Um comentário:

Aun disse...

Concordo com o últino parágrafo.

Tudo está excessivo de manteiga a religião.