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domingo, 23 de agosto de 2015

Vitor Chiarella – o sinal de positivo ainda é válido


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Das ladeiras do Pacaembú para as pistas.

Se você nasceu em São Paulo nos anos 1950 e o seu bairro tinha ladeiras, então é forte candidato à paixão pela velocidade, que nesses idos era despertada a bordo de bicicletas e carrinhos de rolemã, que alcançavam “incríveis” velocidades ladeira abaixo.

Em 1958, quando o Brasil se redimiria do vexame da Copa de 1950, ao faturar pela primeira vez a taça na Copa da Suécia, a família Chiarella viveu uma dose dupla de satisfação – nasceu em 26 de Abril de 1958 Vitor Roberto Chiarella e com certeza os sorrisos de felicidade somaram-se aos da vitória dos “canarinhos”, como eram chamados os jogadores da seleção na época.

Vitor cresceu nas imediações do Estádio Paulo Machado de Carvalho, no charmoso bairro do Pacaembú. Nas ladeiras do bairro ele descobriu o prazer de descer as ruas na maior velocidade que conseguisse conduzindo carrinhos de rolemã ou bicicletas. Também foi lá que aprendeu a dirigir. Mesmo tendo passado a infância vizinho de um dos mais importantes estádios de futebol, foi a velocidade que entrou de forma definitiva na sua vida, e em função da qual vive até hoje. Quando o Pacaembú tornou-se um bairro mais movimentado havia a opção de descer as ladeiras do Morumbi. E foi aí mesmo que ocorreu o primeiro contato com o kart.

Aos dez anos de idade, dois anos antes de o Brasil vencer a terceira Copa, e um ano antes de Emerson Fittipaldi se mudar para a Inglaterra, Vitor sentou pela primeira vez num kart do primo, que era dividido com o amigo Manduca, futuro proprietário de uma oficina especializada em Porsche.

Um evento ficou marcado na lembrança na primeira investida. Ele era tão pequeno para o micro bólido que os seus pés só conseguiam acelerar na ponta, com as pernas totalmente estendidas. Assim, a primeira acelerada jogou o corpo para trás, os pés para cima e o kart apagou.

A essa altura, pilotos brasileiros do kart já disputavam mundiais da modalidade. O kart já era fabricado no Brasil, e se tornara uma febre que iria se expandir muito e iniciar vários campeões no mundo da velocidade. O kartismo estava se tornando um esporte muito atraente para os meninos de então.

Os pais não aprovaram a idéia e somente anos depois Vitor adquiriu o primeiro kart, com recursos próprios. Vitor tinha em 1980 na Rua Margarida, Barra Funda, uma fábrica de roletes de esteiras transportadoras, sendo sócio o irmão.

Compraram um kart Mini Inter pago na forma de crediário (10 vezes). A fábrica tinha um maquinário básico de manufatura e por isso as peças do kart eram feitas lá mesmo, assim como a manutenção. Era a época do fusca rebaixado (este que vos escreve lembra bem disso), com kit's de maior cilindrada, carburação dupla, comando “bravo” e distribuidor de Kombi 1200.

O kart era um equipamento específico de competição, cuja adrenalina era um apelo irresistivel. O kartismo brasileiro já dava notícias, era uma modalidade regulamentada, com campeonatos regionais e nacionais, um esporte em franca ascenção. O kart de Vitor Chiarella chamou a atenção dos amigos que solicitaram a manutenção de kart's que viriam a adquirir, e que lhes daria mais emoção que um fusca de rua.

Começando como preparador.

A moda pegou e em pouco tempo a demanda cresceu o suficiente para justificar a cobrança pelos serviços. Começou a vida de preparador de kart's de Vitor Chiarella.

Vitor iniciou na pilotagem somente em 1982. O kartismo dessa época era diferente em todos os aspectos. No seu primeiro ano fez a etapa inaugural da novatos em Interlagos, obtendo o terceiro lugar. Depois veio Jaú e em seguida São Carlos, prova esta que deixou lembranças. Nessa época eram comuns grid's de 40 a 50 pilotos. A prova de São Carlos bateu record com 65 inscritos. Tanto que a classificação mereceu um prêmio à parte, uma taça de prata. Largaram 36 pilotos na prova e Vitor chegou em quarto.

Em 1983 as coisas mudaram mais profundamente. Vitor percebeu que poderia evoluir, pois figurava sempre entre os seis primeiros. O desempenho de Vitor foi observado por um carioca da fábrica do conhecido cosmético Leite de Rosas. Guga Ribas ficou sabendo que Vitor era o preparador do próprio kart e propôs uma parceria na qual Guga fabricaria um chassi no Rio, com mangas e freio, e os outros componentes seriam fabricados em São Paulo por Vitor. Esse kart ficou conhecido como “Leite de Rosas”, e há hoje um exemplar guardado na Kart Zoom, a sede da equipe de Vitor. Os dois ainda não tinham idéia de que justamente Guga Ribas alcançaria o grande mérito de tornar-se o primeiro brasileiro campeão do mundo no kartismo, façanha ocorrida em 1986.
Guga Ribas, Tchê e Vitor
Essa parceria durou até 1989 e entre outras coisas deu origem à fabricação de uma roda inteiriça, pois na época as rodas eram bi-partidas. Essas rodas eram mais leves, mais largas e tinham offset's diferentes para ajuste da bitola. O chassi era inspirado no mesmo utilizado por Ayrton Senna no mundial de kart de 1979.
Vitor Chiarella e as rodas fabricadas por êle
Fabricando o próprio kart a vida de piloto deu lugar à vida de construtor e a atividade cresceu, o que incluía a manutenção de motores. Foi por isso que a partir de 1984 o espanhol Tchê, falecido em Abril do corrente ano, foi procurado por Vitor para fazer a manutenção de motores, a notória especialidade do espanhol. Tornaram-se amigos que nutriam admiração mútua, e mesmo depois da morte de Tchê, Vitor continua a mandar motores para os herdeiros do espanhol.

O kartismo desses idos era bem mais acessível, mas sempre havia os que tinham mais verba, empregada em mais recursos. Para se ter uma idéia, hoje um kart novo custa a metade de um carro popular e na época isso representava ¼ do preço de um fusca.

Nem por isso era um esporte barato pois havia a manutenção. Por isso Vitor se via na condição de treinar menos, poupando motores e pneus na sua época de kartista. Tanto que no seu primeiro ano fez todas as etapas com um jogo de pneus da Pneubras, fábrica no Rio Grande do Sul, de propriedade do Sr. Adroaldo. Hoje, tal procedimento é impensável.

Os kart's da época exigiam mais da imaginação do preparador. Um ponto muito sensivel em chassis de kart é o ajuste da torção. Não havia elementos de ajuste específicos da torção, como existem hoje, e isso se conseguia com a modificação de barras. Por exemplo, Vitor empregava para essa finalidade uma barra traseira de parachoque, um “X” sob o assoalho e borrachas de fixação do parachoque que poderiam diminuir ou aumentar a torção. Hoje esses controles estão incorporados ao chassi.

Os projetos atuais facilitam o acerto de tal forma que pode ser suficiente abrir a bitola dianteira e fechar a traseira em pista molhada. No passado uma das grandes dificuldades eram os pneus de chuva, de qualidade questionável, que obrigavam o preparador a 'amolecer' todo o chassi. Com os parcos recursos da época, isso não era tarefa simples.

Outra dificuldade diz respeito às dimensões dos pneus da época. No ato da compra buscava-se pneus com diametros bem próximos, afim de formar pares equilibrados. Na época a Pneubras tinha dois compostos: o AM, mais duro, e o AD5, mais macio. As diferenças de diâmetro poderiam resultar na troca da corôa. Hoje essas varáveis são muito menos significativas, os pneus melhoraram muito.

A vida de preparador deu surgimento à Kart Zoom, hoje com sede própria a cinco minutos do Kartódromo Internacional Granja Viana. Entre 1996 e 2014 passaram pela Kart Zoom 75 pilotos que se tornaram campeões, ou vice, nas competições da Granja. O total global de pilotos que aceleraram sob o olhar de Vitor não foi registrado e é um número expressivo.

Entre os conhecidos figuram Daniel Serra, que começou na Kart Zoom aos onze anos e permaneceu na equipe em quase toda sua trajetória. Também pilotaram pela Kart Zoom, Xandinho Negrão e Átila Abreu.

Um piloto que se destacou na equipe foi Ralph Pufleb, filho de alemães que após o kartismo foi para a F-Atlantic no Estados Unidos e se tornou campeão no ano de estréia, fato que repercutiu por aqui na época. Só não ficou no território americano por falta de verba. Recebeu um convite de uma equipe da Indy Light mas conseguiu apenas a metade da verba necessária e retornou ao Brasil.

Pilotos também colaboram com o desenvolvimento do preparador. Foi o caso de Guga Ribas que tinha uma estrutura muito competitiva, similar à de Christian Fittipaldi. Guga tinha dez motores, testava todos e era um dos melhores acertadores de chassi que Vitor conheceu. Nessa parceria gerou-se muita aquisição de conhecimento de pista.

Para outras coisas Vitor tinha a seu favor a sua própria capacidade de compreensão da matéria. Um dos recursos criados por ele próprio foi um piso “zero” (piso plano de concreto) onde ele localizava no chassi a menor altura possível do banco e fazia as medições de deformação por torção do chassi. Hoje a Kart Zoom possue uma mesa para essa finalidade com quatro balanças digitais e gabaritos de posicionamento.

Transmitindo o aprendizado.

Em 1991 Vitor criou um curso de pilotagem com Felipe Giaffone no Kartódromo de Interlagos. Foi nessa época que ele criou uma apostila com conteúdo próprio que é entregue ao iniciante para leitura em casa, e posterior discussão na pista.

Mesmo com uma bagagem digna de nota no kartismo, Vitor se depara frequentemente com uma característica dos atuais iniciantes, totalmente oposta na época dele - os garotos de hoje não se interessam por conhecimentos técnicos mais profundos.

Muita coisa colabora para isso e Vitor reconhece que os preparadores hoje também são responsáveis pela situação. Tudo está caro, não há muito tempo para treinos e as conversas no box frequentemente acabam resumidas no mesmo momento em que o piloto está pronto para acelerar.

Isso dá origem a procedimentos não observados no passado. Alguns pedem ao piloto que entre no box rapidamente para que a vela seja checada e isso gere ajuste de carburação. Há quem interprete do box as tendências do kart na pista e faça ajustes até mesmo sem o conhecimento do pilôto. Nem todos dão atenção ao balanceamento de peso, que habitualmente é de 60% na traseira e 40% na dianteira, com meio tanque de combustivel, variando conforme a potencia do motor.

Vitor prefere que o piloto aprenda a carburar corretamente na pista, procedimento muito sensivel em motores a 2 tempos. Quando chama o piloto para o box, muitas vezes não faz alterações e faz outra tomada de tempo em seguida. É o cronômetro o “dedo duro” e o piloto precisa aprender a interpretar coisas como o estado dos pneus. Vitor prefere dividir a responsabilidade pelos ajustes com o piloto. É a forma clássica e bem sucedida de gerar aprendizado. Nos ajustes há detalhes mínimos que fazem a diferença como, por exemplo, medir alinhamento no cavalete e no chão pois o peso do piloto vai gerar alteração.

Quanto tempo é preciso para um piloto amadurecer?

É óbvio que isso muda de um para outro e nisso entram os preparadores, o dinheiro e o tempo de treino disponível. Literalmente não há uma média de tempo confiável para que alguém seja julgado maduro na pilotagem.

E um mecânico?

Para este é preciso um longo tempo de aprendizado de pequenos detalhes, de refinamentos nos procedimentos, adquirir conhecimento de traçados e ser também um bom cronometrista. Um mecânico dito completo, atinge essa condição em até dez anos.

Já que a eletrônica entrou no kartismo também, resta uma última questão sobre um aspecto de fato sensível. Telemetria a bordo com Alfano é bom?

Sim e não. É ruim quando o pilôto se fixa nisso e desconcentra momentaneamente da pilotagem. Nessas horas o clássico sinal de positivo do box ainda é a referência para uma volta boa, que deve ser memorizada e repetida.

Após 35 anos dedicados ao kartismo, Vitor colecionou lembranças, vitórias, amigos, fundou família, ergueu a sede própria da equipe, é respeitado e admirado.

É também um representante do que pode ser chamado de kartismo clássico, no qual o pilôto guiava a sua própria receita de ajustes e preparação. Não há dúvida de que esse modo tradicional de kartismo, onde o pilôto sabe o que esperar mecânicamente do seu kart, é a forma mais segura de aprender as minúcias desse esporte espetacular. A isso ele agrega o inestimável valor de ter a capacidade de trasnmitir o que sabe a novos pilôtos e mecânicos.

E como filho de peixe, peixe é, seu filho Vitor segue o mesmo “traçado” do pai. É dessas referências que necessitamos.

Para contato:

Kart Zoom


(11) 4612-1449
(11) 98123-3664
E-mail: vitorchiarella@hotmail.com



Nota do blog:
O autor do blog sente uma incrível satisfação por ter escrito depoimentos de pessoas como Paulo Manoel Combacau, Tchê, e agora Vitor Chiarella. O título desse post se refere a um momento singular que, por várias razões, vai ficar na lembrança – o sinal de positivo recebido na reta, dado por um preparador que sabe quando é a hora de informar que a pilotagem vai indo bem. São essas pequenas coisas que valorizam a vida e justificam muitas das nossas iniciativas. Espero que alguém que esteja lendo isso aqui, algum dia se sinta motivado a se esforçar para merecer o dito sinal. Se isso se der sob o comando do meu amigo Vitor, ficarei feliz.

2 comentários:

Talarico disse...

Mais uma bela postagem, Zé.
Parabéns para você e para o Vitor.
Abrax do Tala !!

Jose Clemente disse...

Xará, parabéns pelo post. Excelelente colocação de uma carreira do início (da vida) até a passagem de bastão para continuidade dos negócios. Sem falar do detalhamento do kart e suas minúcias para que todos leitores possam entender. Parabéns !!!