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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nos Bastidores do Automobilismo Brasileiro (4)


 fragmentos do livro de Jan Balder e comentários do Amigos Velozes.

Nos anos 1950, equipamentos de competição eram não apenas um luxo mas, dependendo do caso, algo inexistente. Assim sendo os carros eram transformados em outra coisa diferente do original, tendo para isso a imaginação e genialidade de alguns como o meio de transformação. Muito diferente dos dias atuais quando alguém que queira preparar um carro para uma prova, pode sem maiores dificuldades fazer uma pesquisa na internet e adquirir, sentado à frente do seu computador, algum ítem vindo da Europa ou Estados Unidos. Os parágrafos abaixo, levam fácilmente à conclusão de que aqui as coisas eram feitas ´na unha´, como temos o hábito de dizer.


O automobilismo sempre foi um esporte de risco. Pior ainda naquela época, quando os carros tinham muita potencia de motor para pouco conjunto de aderencia. Como dizia Camilo Christófaro, os pneus diagonais cresciam, esticavam e viravam “salsicha” em alta velocidade. Os pilotos não usavam cinto de segurança, e o volante de direção de grande diâmetro era trabalhoso e demorado nas correções de contra-esterços.

Era tudo muito novo. Estávamos aprendendo. Muitos carros de mecânica nacional pareciam cabritos andando pela pista. Jorge Lettry ironizava, dizendo: “O eixo traseiro não foi apresentado ao dianteiro”. Essas particularidades provocavam cenas hilárias. Lembro do piloto Naim Homsi saindo do seu carro no boxe; ele mais parecia um “mosquito elétrico” cumprimentando os amigos, de tanto que o carro vibrava e pulava.

Os pequenos carros de turismo de baixa cilindrada muitas vezes largavam junto com os de categorias maiores e nem sempre eram notados pelo público.
Tinham, sim, ótima performance dentro da sua categoria. Eram todos carros importados e de difícil manutenção, mas a criatividade brasileira mostrava a sua cara por meio de variadas adaptações. Por exemplo, muitas peças eram confeccionadas nas poucas oficinas mecânicas existentes na época.


A lógica do automobilismo dessa época era muito diferente da atual. Os pilotos faziam mais do que pilotar e tinham trabalho dobrado. Um piloto poderia também ser o preparador do seu próprio carro. O mais famoso caso dessa forma de pilotagem era Camilo Christófaro que fazia toda a preparação da sua carretera. Nessa época tudo que chamávamos de automobilismo estava nascendo e os integrantes de uma equipe contavam com os recursos mínimos disponíveis para a preparação e acertos dos seus bólidos. A sensibilidade e genialidade eram os principais atributos empregados para se obter um bom rendimento. O ouvido era a melhor ferramenta de diagnóstico dos motores, e a centralina ficava no piloto e não no motor.

Tudo que era chamado de desenvolvimento tinha como forma de aferição apenas o cronometro e a capacidade do piloto interpretar por sua propria conta as mudanças de comportamento ocorridas desde a última modificação.

O ítem mais crucial de qualquer carro de competição, os pneus, eram antiquados diagonais que hoje alguem que esteja na faixa dos 25 a 30 anos, provavelmente jamais percebeu o comportamento deles em contato com o solo. As variáveis que deviam ser consideradas na pilotagem eram muitas mais se comparadas com os recursos atuais. Um pneu que muda de diâmetro conforme a velocidade é um ítem que torna uma incógnita o seu comportamento na curva seguinte dependendo do raio desta. Assim, o approach não poderia obedecer uma lógica comum ao comportamento dos pneus.

Certa vez o genro do Camilão me disse que saiu com a carretera 18 do sogro para sentir o comportamento na rua do bairro. Disse ele que só um maluco poderia guiar aquilo. Uma autentica cadeira elétrica que reagia aos comandos de forma brusca e imprevisível e que desafiava o piloto a dominá-la.

Vou inferir sem ter no que me basear, que é possivel que essa grande dificuldade de dominar os carros da época tenha dado origem ao termo ´tourear´ o carro. Mesmo que eu esteja errado a verdade é que esses pilôtos eram verdadeiros toureiros porque os seus carros não eram exatamente maravilhas da mecanica, mas sim transformações duvidosas que até tiraram a vida de alguns. Apenas para não esquecer, nessa época além de não usarem cintos de segurança também não havia o conhecido “Santo Antonio”, armação tubular de proteção no interior do veículo que já salvou a vida de muita gente em capotagens.

Para vencer uma corrida eram necessárias duas coisas básicas: pilotar e sobreviver. Não é à toa que pilotos dessa época eram chamados de heróis.



Um comentário:

Pedro Henrique "Baleiro" disse...

Zeca, muito bom, é isso aí, e ainda complemento, os caras não tinham nem capacete, rs, no máximo uma touca de couro. Tenho uma foto do Aylton Varanda sem capacete, correndo de SINCA em Petrópolis em 1951 e de capacete de PM,em 1956 correndo de MG.
Abração.